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Tenro Ser - Devaneios

Roland Barthes, em seu consagrado livro, A Câmara Clara, reforça: a fotografia se torna “surpreendente” a partir do momento em que não se sabe para que ela foi tirada. E é isso o que eu vejo nesse ensaio fotográfico, realizado visivelmente em terrenos distantes. Distantes também as ocasiões as quais as cenas foram tomadas, mas com uma densa unidade e evidenciada poética, na construção das imagens figurativas, com um “ar” plástico e às vezes de um moderno – no sentido de novo – jornalismo documental. Onde se percebe a presença numerosa do elemento construtivo da criança, hora ocupando todo o quadro, hora quase que imperceptível, mas com densidade de igual valor. Valendo-se desta eficácia Paulo Lima atira para onde vê, fazendo lembrar-me muito distante mergulho na fotografia, onde por orientação do intuito registrava tudo que chamava atenção dos meus inquietos olhos.

 

Sabemos que para torna-se um “bom” fotógrafo temos que antes de tudo acreditar no nosso sentido. A credibilidade que nos damos, é a base para o nosso próprio decolar. Assim como o pescador que levantará a vara de dentro d’água toda vez que, somente ele achar que um peixe fisgou seu anzol e este ritual se repetirá até que de fato ele suba com o seu desejo iscado.
A fotografia contemporânea, sobre tudo a brasileira nos mostra uma forma bastante intrigante de vermos uma cena. Hoje, os novos fotógrafos assumem cada vez mais novas maneiras de expressão, dos anseios, de forma bastante pessoal, distanciando-se cada vez mais das formas clichês do olhar, se posso chamar assim os fotógrafos que insistem eternamente em copiar seus mestres; devendo libertar, ou melhor, nascer independentes. Paulo Lima mostra nesse ensaio Tenro Ser - Devaneios uma liberdade adquirida prematuramente no convívio diário da fotografia, suas imagens revelam um olhar atento aos mais sutis dos movimentos, a mais debiên das luzes, a mais pobre das imagens. Podemos comparar essas fotos a formas de objetos e animais criadas pelas nuvens no céu ou mesmo flores em árvores nas margens das estradas. Elas existem para atender a sua necessidade de existência, não para esclarecer ou justificar.

 

Somente os que vêem podem questionar a existência das imagens.

Marcelo Reis

(Ensaísta / Fotógrafo / Diretor da Casa da Photographia)

Fotografia e infância: metáforas de um olhar-ver

O fotógrafo Paulo Lima sai todos os dias, apressado e lento, pisando como menino, pelas ruas da cidade do Salvador e pelo recôncavo baiano. Sua principal meta é a viagem aos territórios imagéticos da in-fans, visando a captura dos devaneios do tenro ser. In-fans quer dizer aquele que não fala, mas as crianças aqui retratadas, falam com seus olhos em sintonia com os olhos de Paulo.

Por entre carros, defumadores, banhos de pipoca para Omolú, todos os orixás e erês; atravessa ruas, ladeiras, becos e palafitas. Vai, desta maneira, empinando pipas, aguçando as lentes do seu olhar de fotógrafo-pesquisador- poeta, dilatando retinas, aprimorando o foco do seu brincante olhar social, crítico e subjetivo para o outro, para o ser criança. Ele fotografa as crianças, unindo técnica, olho, víscera e coração e, assim, vai seguindo seu curso pelo leito dos rios, vielas estreitas nos meandros urbano-rurais. As fotos que faz, traduzem metáforas eivadas de um olhar marejado de realidade e focos de luz da condição infantil. Neste sentido, ele faz o que certa vez disse o mímico Marcel Marceau: todo artista deve revelar em si a condição humana.

Paulo Lima, por fim, derrama neste espaço de cultura, arte e sentimento, o seu olhar afoito, rebelde e delicado sobre os pelourinhos da cidade, provavelmente, para capturar as representações dos erês no horizonte rubro de sangue e céu azul em preto e branco, as mensagens dos olhares infantis com suas cenas de doçura, dores e prazeres em meio a coqueiros, frutas da infância, desejos e afetos regados a comidas de santo, doces jogos, afagos e guloseimas de Cosme e Damião. Reconheço que a retina de sua câmera-olho entende como ninguém de criança, pois, pra entender o Erê tem que estar moleque e a consciência leve...

Maurício Roberto da Silva

Autor dos livros: O Sujeito Fingidor. Florianópolis,: Editora da UFSC 2001;Trama-Doce amarga: exploração do trabalho infantil e cultura lúdica.São Paulo:Editora HUCITEC-UNIJUÍ, 2003.

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